Shakespeare on Stages Elsewhere

There has been a Shakespeare beyond England and English since Shakespeare existed. Travelling troupes known as “English comedians” toured Germany in the late 16th century and into the first decades of the 17th century. Scholars believe that plays such as Romeo and Juliet and Hamlet were part of their repertoire, albeit greatly adapted to local audiences. Plotlines and characters were simplified and sometimes only key scenes from Shakespeare’s texts were preserved. Hamlet is thought to have a German counterpart in Der bestrafte Brudermord (Fratricide Revenged), a radical comedic reconfiguration where Hamlet is turned into a clown.

The appropriation and adaptation of Shakespeare’s plays in Germany is one example of the earlier stages of Shakespeare’s globalization. The phenomenon that later became known in Germany as “unser Shakespeare (“our” Shakespeare) went global: many other countries are prepared to offer Shakespeare citizenship. Over the past two centuries this process has intensified: Shakespeare has been appropriated and reinvented according to multiple perspectives, purposes and ideologies, in different languages, histories and geographies. Reimagined in Bollywood, transformed into opera in Italy, musicals in Brazil, films in Japan, refashioned by political regimes such as Mao’s China, Shakespeare is all over the globe in different shapes and forms. While it is true that the English Bard cannot be entirely severed from his language or cultural context, the proliferation of his works worldwide demonstrates that he cannot be reduced to a single domain.

As scholarly interest in this line of inquiry expands, the global history of performance is being established as a fundamental part of Shakespeare Studies in the field known as Global Shakespeare. Indeed, since Dennis Kennedy reminded readers that Shakespeare was the most performed playwright in the world in Foreign Shakespeare (1993), the first consistent account of Shakespeare in performance outside the English speaking world, there has been a growing interest in the field. Publications, conferences, courses, research centers and theatre festivals such as the 2012 Globe to Globe (where 37 plays in nearly 50 languages were performed in London) show how the concept of Global Shakespeare has caught on in different parts of the globe. But what is Global Shakespeare? Simply put, it is an inclusive conversation which crosses cultures, languages, media through the medium of Shakespeare. Global Shakespeare reflects on how intercultural performances operate and examines the tensions between the “old” and the “new” Shakespeare. Frequently referred to in the plural, Shakespeares signals to the fact that Shakespeare cannot be defined by one single cultural identity.

Digital archives play an instrumental role in the study of Global Shakespeare since they enable the access to video recordings of global performances of Shakespeare. This is the case of the MIT Global Shakespeares project (http://globalshakespeares.mit.edu), a pioneer open-access digital environment founded in 2010 by MIT Professor Peter Donaldson and GWU Professor Alexa Huang. The project serves as a core resource for students, teachers, artists and researchers offering free access to an extensive collection of vetted videos that are thoroughly researched and annotated. Users can work in conjunction with text and video or with video alone. For instance, one can focus on key scenes and view videos comparatively to see how different cultures reinterpret that scene. What new inflexions are produced? How can these new, local, perceptions contribute/influence/amplify the global debate of Shakespeare and our own individual readings of his works? What modes of cultural exchange are engendered through the dialogue between foreign and English speaking productions of Shakespeare? The possibilities are fascinating. As Huang argues “digital videos can never replace live performance, but they can, especially in a globally interconnected online environment, do many things that the performances it records cannot do.”[1] (46)

As programs such as British Council’s Shakespeare Lives celebrates the Bard’s 400th death anniversary in 140 countries across the world, Shakespeare is being translated, read, watched, debated and performed like never before. The study of Shakespeare as a global phenomenon is more pertinent than ever.

 

[1] Huang, Alexa. “Global Shakespeare 2.0. and the Task of the Performance Archive” in: Shakespeare Survey 64.

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A amamentação e o poder das imagens: Macbeth e As vinhas da ira

[to be translated]

Gostaria de falar sobre a amamentação de um ponto de vista literário, fazendo um pequeno e superficial recorte de duas fortes imagens que encontramos na literatura de língua inglesa. A titulo de isca, recorro à duas imagens emblemáticas da tragédia Macbeth (William Shakespeare, 1564-1616) e do romance As vinhas da ira (John Steinbeck, 1902-1968), ambas obras literárias canônicas das literaturas inglesa e norte-americana, respectivamente.

A primeira vem com, talvez, uma das mais poderosas e temerárias personagens femininas do cânone shakespeariano: Lady Macbeth, a esposa do protagonista que, ao incitá-lo a dar cabo ao assassinato do Rei Duncan para usurpar o trono, clama: “Unsex me here!” e confessa que não hesitaria em esmagar a cabeça de seu bebê enquanto o amamentava, fosse para dar a coroa ao marido: “I have given suck, and know/ How tender ‘tis to love the babe that milks me: / I would, while it was smiling in my face, / Have plucked my nipple from his boneless gums, / And dashed the brains out, had I so sworn as you/ Have done to this.” (I.vii.54-59) Eis, sem dúvida, uma cena fortíssima e Shakespeare demoniza a figura de Lady Macbeth recorrendo a uma das mais belas e sagradas condições da maternidade: a amamentação.

Cabe abrir um parênteses para lembrar que a amamentação na Inglaterra elisabetana era uma prática enfaticamente recomendada pela literatura médica e religiosa, bem como pelas receitas medicinais encontradas em registros escritos pelas mulheres. Desta maneira e, talvez aqui alguns possam se surpreender, existiam manuais que tratavam meticulosamente dos cuidados para uma adequada amamentação. Diria-se, mesmo, que o interesse e o conhecimento sobre os poderes do leite materno há mais de 400 anos não ficariam muito aquém das últimas edições de livros acerca do assunto para leigos. Reconhecia-se as propriedades medicinais do lei materno não somente para os bebês mas também para vários tipos de doenças.

Lady Macbeth, muito embora seja uma mulher bela, sedutora, forte e influente até em assuntos políticos (algo atípico para a mulher da época) é, no âmago de seu ser, uma pessoa sem escrúpulos e desconstrói o arquétipo da imagem mais sagrada do acervo pictórico da representação feminina: a figura de Maria. Em termos imagísticos, Maria é a construção sócio-cultural do que temos de mais materno e santo; da mulher pura, imaculada e nutridora. Lady Macbeth, por meio de sua transgressão, incorpora, então, a figura antitética de Maria e torna-se Eva, a tentadora – aquela que expulsou a humanidade do Paraíso e a condenou a um eterno mundo de pecados, imprimindo a culpa na mulher. Lady Macbeth, tal qual Eva, com efeito, não passou impune: enlouqueceu, perdeu a ambição, o marido que amava e se suicidou.

John Steinbeck, a despeito de minha confessa familiaridade com Shakespeare, ganha, no momento, uma importância maior para o que gostaria de sublinhar. As vinhas da ira (1939) ilustra o período da Grande Depressão nos Estados Unidos, um período de opressão e sofrimento para centenas de milhares de trabalhadores. A situação de alguns estados acometidos pela seca, como Oklahoma, era de pura calamidade e muitos trabalhadores da lavoura decidem procurar emprego em estados férteis como a Califórnia, Washington e Oregon.

A familia dos Joads acredita no sonho da maioria e parte para a famigerada jornada da Route 66, aos poucos perdendo membros da família e ganhando muita desilusão. Como muitos, os Joads são explorados como escravos na Califórnia e passam por vários percalços.

O capítulo final do romance é potencializado com uma força religiosa imensa quando a filha dos Joads, Rose of Sharon, abandonada pelo marido e, tendo recém perdido seu bebê, lembra a Pietá. Rose of Sharon amamenta um homem debilitado pela fome e seu filho. Acompanhamos a transformacão de Rose of Sharon que passa de uma moça egoista, caprichosa e imatura para assumir um papel semelhante àquele da mãe de Cristo. Tal qual Maria, ela representa a essência da maternidade, nutrindo não somente proteção e conforto mas também o sagrado leite materno. Steinbeck fecha um dos mais famosos romances americanos que trata da infertilidade da terra e dos homens com a metáfora da mulher nutridora. Ele sublinha a idéia de que a generosidade e o sacrificio são as maiores virtudes da mulher. A mulher em As vinhas da ira é dotada de poderes religiosos e redentores.

A cena da amamentação em As vinhas da ira auxilia a sustentar a idéia da nação; uma nação que a despeito de passar por uma depressão jamais vista, por uma seca sem precedentes, encontra nos seios de uma mulher, a seiva da Terra Prometida, “the land of milk and honey”.

A mulher, como Simone de Beauvoir (O segundo sexo) e Virginia Woolf (Um teto todo seu) advertem, em muitas narrativas da nação (basta lembrar de Pocahontas, A letra escarlate, Iracema), ajuda escritores masculinos a veicular a idéia da “pátria-mãe”.

Shakespeare e Steinbeck criam duas mulheres caricatas e se utilizam da metáfora da amamentação para fortalecer os dois tipos mais importantes na representacão mulher: o anjo e o monstro. Lady Macbeth é a mulher que amedronta, tamanha sua força e Rose of Sharon, a mulher que se resigna perante seu destino e, baixando a cabeça, nutre um desconhecido.

Escritores homens parecem ter dificuldades em dar conta de mulheres “reais”; em outras palavras, ora as mulheres são suas musas inspiradoras, seus anjos protetores, ora são aquelas que os assombram e que os levam a perdição. Tratei, aqui, da amamentação para ilustrar como uma imagem, na literatura ajuda a cristalizar padrões e estereótipos que acabamos por considerar “normais”. Ora, convenhamos, a mulher não é nem anjo, nem monstro.

Como diriam as teóricas francesas Hélène Cixous e Luce Irigaray, quem tem maior legitimidade para falar sobre a amamentação é a “escritura feminina” (l’ecriture feminine), escrita despretenciosamente, a partir da fluída experiência feminina. E, de preferência, (e aqui a metáfora não poderia funcionar mais adequadamente!) com “tinta branca” (white ink), o leite materno.

Considerações Pós Dia das Mães (to be translated)

Eu publiquei o texto abaixo em 2005 no jornal Gazeta do Povo. Embora eu não goste de algumas frases, minhas idéias continuam absolutamente as mesmas.

“Considerações Pós dia das Mães”

Simone de Beauvoir, em seu célebre livro O Segundo Sexo (1949), assevera o seguinte: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Muito embora a filósofa francesa, companheira do mais ainda célebre filósofo existencialista, Jean Paul Sartre, nunca ter sido mãe, pergunto-me se sua frase se aplica à questão da maternidade. E aí, a frase leria-se desta forma: “Não se nasce mãe, torna-se mãe”. De qualquer forma, que reflexões estaria Simone fazendo se ela tivesse formulado tal pergunta? Tal qual a pergunta feita em O Segundo Sexo, ela estaria dizendo que não, não nascemos com o talento singular da maternidade; ser mãe é uma construção sócio-cultural.

Isto me fica muito claro depois do dia das mães. A figura da mãe é enaltecida nas músicas ensaiadas pelas crianças nas escolas, nas propagandas de televisão, nos outdoors, nas revistas e jornais. Somos bombardeados pela imagem da mamãe. Mães-esportivas, mães-intelectuais, mães-peruas, mães-executivas, mães-mais-novas, mães-mais-velhas, mães com os mais vários estereótipos. Mas todas iguais. Como assim? Prestem atenção: são todas mães lindas, graciosas, elegantes, com corpões (sim, mesmo as mais velhas!) e principalmente – característica inequívoca de toda mãe: felizes, felicíssimas.

Ora bolas, fico aqui eu pensando com meus botões…. A mãe da minha mãe não é assim. Minha mãe não é assim. Eu não sou assim. Quem, pergunto, quem corresponde a esta imagem tão sacrosanta da mãe? Mas antes que você atire pedras, caro leitor, permita-me explicar melhor. Acredito, no mais profundo do meu eu, que há, realmente ‘algo’ que santifica a figura materna. Mas o santo não está no sorriso plástico, nem no corpo perfeito e tampouco na felicidade à toda prova. Fazer apologia à figura materna por intermédio destes estereótipos é fazer um verdadeiro desserviço às mães.

A realidade é que a sociedade constrói padrões que nos levam a querer ser, talvez, o que não podemos. No caso específico da maternidade, parece que a mulher nasceu para ser mãe. Lembro da minha reação, anos atrás, frente ao comentário de uma amiga: “Nunca quis ser mãe”: fiquei um pouco decepcionada com ela, coitada. Para mim, não querer ser mãe era uma afronta, uma espécie de falha de caráter. Hoje com anos de kilometragem materna rodada e com um senso crítico um pouquinho mais apurado (olhe que otimista!), reconheço a maturidade, sabedoria e até coragem da minha amiga. Ser mãe não é para todas. Ser mãe envolve responsabilidades, tempo, amor, dinheiro e muito, muitíssimo doar-de-si.

Quando vejo crianças ao léo, viciadas em telenovelas, grudadas nas telas do computador, crianças cujo habitat natural é o shopping center, me pergunto o que aconteceu com a infância, será que, como diz o pessimista filósofo Baudrillard, a infância e adolescência não existem mais? E as mães existem? Arrisco a dizer que sim, existem. Talvez reconfiguradas, espelhos destas novas crianças e adolescentes. A reconfiguração da mãe moderna é complexa, pois ela tenta a todo custo cumprir todos os papéis sociais que a sociedade contemporânea lhe impõe. Não consegue aquele padrão de beleza cruel, não consegue aquele sorriso plástico retocado por programas de computadores, não consegue ser feliz o tempo todo, não consegue ser mãe perfeita. Talvez muitas devessem seguir as sábias – porém ainda polêmicas – palavras da minha amiga. A maternidade é, sobretudo, uma questão de escolha.

 

“What country, friends, is this? “

Viola: What country, friends, is this?
Captain: This is Illyria, lady.
And what should I do in Illyria?

                                                                                                                           (Twelfth Night, 1.2)

Pictures can be quite elusive. That flash froze a smile that marked a turning point my life: my arrival in the United States as an immigrant. Not everything has been smiles since then.

I frequently reflect upon my condition as an immigrant. It is an interesting situation to be in — there is so much to learn and explore. At the same time, one would think that the precarious nature of exile should be self-evident to anyone who is willing to leave his or her roots behind. But nothing prepared me for that.  One doesn’t simply shed one’s old skin for a new one. There are layers and layers that simply cannot be left behind. There are new perspectives and different modes of being you in this new world. Not all of them will be to your liking. In what, in hindsight, seems like a ridiculously naïve argument, I used to empathize with the idea that one could be a “citizen of the world”. In our so-called globalized world, it is tempting to imagine that the lines in the map do not define who you are.   I never considered myself a  particularly patriotic person. In many senses, I was anti-patriotic. I always looked beyond the borders of my home country. I learned different languages and lived abroad for years, romantically cultivating my alleged worldliness. There were moments when I consciously rejected my country and my culture. I thought I was beyond all that nationalistic nonsense. But the experience of being an immigrant has proven me wrong in so many senses! Immigration transcended my logic and beliefs. It defied the idea that the world is a village and that we can translate ourselves smoothly into other cultural selves.

It has been a bumpy ride.

Let me put it this way: there is no positive outcome that results from a fracture. Having a broken limb is something radical and aggressive. Some people will never heal. Others will have to devise their own survival kit and try to live with the pains of brokenness. There will be a permanent fissure which will mark the fracture. The map is indeed just a line sketched in a piece of paper. But that geography is an emotional space peopled by sounds, smells, faces and memories that will follow you wherever you are. Michael Ondaatje, a Sri Lankan-born Canadian writer, fittingly called it “the sadness of geography”.  This sadness will be a permanent part of who you are.

When I arrived in the United States as an immigrant, it felt as if I had landed on a foreign land after a shipwreck, much like Viola arriving in Illyria, not knowing what to expect. The process of being transplanted to a different soil requires constant adjustments and “corrections”. Similar to Viola, who disguised herself as a man to protect herself, I oftentimes feel like an impostor in a foreign land. Viola’s main problem in Shakespeare’s play is also my own: it is that of identity, of shifting selves between what you have always been and what needs to projected in this new world.  Belonging is a natural process and takes a long time to happen.

Yet dear reader, narratives thrive upon conflict. There is no great story without a conflict. And this is why immigration makes for fascinating narratives. These narratives frequently tell stories of survival, of overcoming the pains of isolation and deep discomfort. While these stories describe an enormous amount of misfortune and sadness, they also emanate hope, resilience, strength and success. In literary terms, immigrant stories are kin to Bildungsroman, a coming-of-age story that focuses on the psychological growth of the main character.  It is true that Viola, the delightful Shakespearian heroine, at the end, manages to free herself from the roles she had created as shelters in the foreign environment of Illyria. I am trying to hold on to that thought.

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